Solitude e enfadamento

Nunca, nem nos piores cenários que criei, me imaginária na posição em que me encontro hoje. Voltei à casa certa de que facilmente conseguiria construir algo meu e que ao longo do caminho retomaria grandes amizades e me fortaleceria. Eu sei que vivemos uma recessão, e no Brasil não estar em crise parece um privilégio ao qual não gozaremos tão cedo. E já se vai quase meio ano procurando emprego sem respostas.

Duas graduações depois. Anos e anos de trabalho, trabalho voluntário, engajamento de cuidado e amor com o próximo: essas coisas não parecem valer no sistema que tão bem nutrimos nas últimas décadas.

Eu raciocino que não sou culpada. Fiz tudo quanto podia para seguir o script e fugir da pobreza geracional que seria certa caso decidisse não estudar.

O que me dói mais talvez seja o fato de realmente me importar com esse mundo, que no fim do dia pertence aos canalhas.

Não sou culpada pela estrutura que não acredita em pessoas como eu. Não sou. Além de ter estudado e trabalhado como o fiz, e ter conseguido uma bolsa de mestrado completa em uma das melhores universidades no mundo, não me restava nada mais que pudesse fazer. Devia ter ficado no Brasil e trabalhado mais? Será que minha alma teria aguentado? Acredito que não.

Também poderia ter nascido branca, com um nome desses bonitos que chamam a atenção dos recrutadores desse país, um nome estrangeiro. Mas Deus me fez “dos Santos” e é esse nome que levarei ao topo comigo.

O retorno à casa, sonhado como um momento de aprendizado e crescimento, sse tornou um momento de solitude e enfadamento.

Além de não ter emprego, também já não tenho amigos nesse pedaço de mundo. Tento não me culpar, não pensar demais na forma como eu me escondi esses últimos anos em uma armadura para que os outros não pudessem enxergar os feios arranhões que carrego.

Aos olhos dos meus sou forte, independente. Uma pessoa que talvez não precise de ninguém. E é assim que estou há alguns meses: sem ninguém. Sem convites para drinks em casa, ou encontros no parque. Sem mensagens perguntando como estou. Dos amigos que acreditei ter cativado em terras brasileiras: não sei se o fiz de fato.

É nos momentos de maior dificuldade que ativamos o que de melhor há em nós, ouvi. Parei de me perguntar o que fiz de errado, ou o que poderia fazer para ser uma amiga melhor. Também parei de me questionar o que deveria ter feito para conseguir um emprego nos dias de hoje. Talvez saiba as respostas, mas elas ferem a pessoa que eu fui e a pessoa que de fato sou.

Aceito a solitude e o sentimento de enfadamento que se alojaram no meu coração há alguns meses.

Aceito que tenho profunda admiração e amor por pessoas que tem sseus próprios problemas e suas próprias vidas, das quais não faço parte há muito tempo.

Aceito que esse é o país onde me criei: as relações humanas são baseadas em compartilhar momentos juntos, sempre.

Aceito para sentir menos dor.

Na maioria dos dias sigo a rotina que criei para não pensar em como meus dias são vazios de atividades e conversas.

Aceito e sigo, por que apesar de achar tudo um pouco sem sentido não quero me deixar reduzir por um sistema que tanto já fez mal à minha gente.

Sigo viva, mas forte já não sei.

Estou cansada de me sentir demais

Estou cansada de me sentir demais

ser demais e ainda assim insuficiente

Pois corações pequenos não podem entender a complexidade do meu ser

Eu vivi milhares de vidas

para sobreviver essa única existência que me foi dada

Para condensar meus sentimentos nesse espaço e tempo

Estou cansada de me sentir demais

ser demais

Então eu escolho não mais fazê-lo

Já é suficiente

Eu pararei de sobreviver

para finalmente

viver

*traduzido do original em inglês

Que triste seria terminar o ano sem relembrar os nossos

Que triste seria terminar o ano sem relembrar os nossos

Aqueles que se foram cedo demais

Deixaram a memória de seus risos, o cheiro dos seus abraços e

um certo vazio que quase não se explica

Talvez o Deus que ordena as coisas no nosso mundo

os tenha de fato livrado das provações que hão de vir

E nós, aqueles que ficaram, estejamos fadados a sobreviver

Mas esse poema não era para ser um poema triste mas dedicado a vida

A vida que nos resta, a vida que me resta viver

Por que ainda a possuo, ainda vivo!

Cada dia que passo observando os próximos passos dos nossos,

me pergunto se de fato vivo

Ou se sobrevivo em um mundo cada vez mais moldado por escolhas além de mim.

Que triste seria terminar o ano sem lembrar dos nossos

Aqueles que se foram tão subitamente, tão violentamente, tão injustamente

À vocês dedico a felicidade do viver essa véspera de natal

inúteis sentimentos

chove lá fora, tenho sono e não consigo pensar direito

o cansaço e uma certa melancolia tomaram conta do meu corpo hoje

qual é a razão pela qual fomos feitos seres que além de raciocinarem

sentem, se sentimentos ficam presos nos poemas que escrevemos

em dias ruins depois de tomar café e tentar com um gole do líquido quente

engolir as tristezas desse mundo.

Um poema para os meus mortos

Eu acordei um dia

Nessa terra que dizem ser

A terra de Deus, e meu povo vivia

Vivia em paz, vivia forte

Vivos seguiamos carregando conosco

Nossa ancestralidade e até mesmo tudo aquilo

Que nos foi tomado em centenas de anos de

apagamento e violência

Eu acordei um dia e minhas crianças não morriam

Na mão daqueles que um dia juraram protegê-las

Eu acordei um dia não sentia esse peso no meu peito

De amar um país que não me ama

Sobre achar um emprego em tempos de pandemia

Será o destino dos chamados millenials estar todo o sempre procurando sentido nas suas escolhas ?

Este texto sai como um desabafo, nesse espaço que se tornou tão meu e tão próximo de representar o modo como tenho enxergado o mundo nesses últimos meses.

2020 foi o ano em que muitas das nossas tragédias pessoais se tornaram tão pequenas em frente a tragédia coletiva que vivemos com a pandemia de COVID-19. Tendo dito isso, também não acho que meu posicionamento nesse texto mudaria estivessemos vivendo tempos normais.

Estudei e estudei buscando compreender esse mundo. Achava que assim poderia ser um instrumento para fazê-lo melhor. Foram duas graduações, um mestrado, e muitas experiências maravilhosas nesse meio tempo com gente. Gente que me inspirou, gente que me mostrou que todo esse processo valia a pena.

Era parte da minha personalidade estar envolvida com projetos que me deixassem de alma cheia, ainda que tivesse pouco tempo por estar conciliando trabalho e estudos.

Nunca deixei de voluntariar, de apoiar amigos e amigos na transformação que eles buscavam na nossa comunidade, na universidade e fora. E quando tive tempo, pela primeira vez na minha vida adulta, busquei fazer mesmo me engajando com o coletivo estudantil no mestrado.

Muita vontade de estar com gente, apesar de todas as dificuldades que estiveram presente durante esse período.

Nesse exato momento eu me pergunto: por que? Talvez ao pobre a vontade de mudar, de se engajar em questões sociais profissionalmente seja vetada. Na procura de emprego há alguns meses, sinto que não me encaixo nas oportunidades que surgem.

Para além disso: sinto que essa vontade de transformar o mundo é negativa. Não há tempo de mudar o mundo: precisamos de pessoas que vistam a camisa do time, e só. Que tenham anos de experiência apesar da pouca idade. Nesse mundo eu sinto que toda a experiência com gente, com lidar com processos mais complexos do que uma planilha de excel é visto como pouco, muito pouco.

Não mudaria nada no meu caminho: ele me deu tanto. Mas talvez pediria a força criadora que mudasse as coisas que me movem, talvez assim meu caminho nesse mundo de pandemia fosse mais fácil, talvez assim eu conseguisse justificar minhas escolhas de forma menos ‘clichê’ e colocá-las no pote que querem.

Pandemia

Acordo. Mais um dia igual ao outro, seria assim tão ruim acordar? Mas hoje tenho um plano! Hoje tenho uma lista de coisas a fazer, afinal, é o que devemos fazer, não é? Estar em movimento, ser produtivos, criar coisas, se exercitar, não parar.

Acordo. Não me sinto bem. Olho para o celular e vejo uma mensagem sua contando sobre os planos para o final de semana. Sinto que deveria responder, mas o que responder? Quais são os meus planos afinal? Não os tenho de fato. A minha lista de afazeres não configura planos, já não sou a pessoa cheia de planos e vida que você conheceu. Não sou ninguém.

Acordo e não quero levantar. Sinto que a minha existência foi reduzida a minha lista de afazeres, que eu tão assiduamente atualizo e na qual me apego para sentir qualquer coisa, sentir-se útil.

Gostaria de lhe contar a verdade: de que sinto que não sou a mesma e que não gosto dessa nova eu. Queria poder te dizer que eu me sinto metade de mim, sub-humana, fraca e tenho medo de que vocês e todos os outros o percebam. Tenho medo de que não gostem dessa pessoa sem planos que me tornei.

Acordo e sinto meu coração pesar. Que direito tenho eu de reclamar? Acordo sem fome, em uma cama quente, tenho roupas limpas. Tenho dinheiro guardado por alguns meses. Tenho comida na mesa por três refeições. Leio, me exercito, falo com amigos ao redor do mundo. Como posso ser tão mesquinha? Mas será possível ser mesquinha nessa meia vida?

Decido respondê-lo. Hoje isso é tudo que posso oferecer. Minha lista de afazeres, um dia por vez. E isso teria que ser suficiente, não poderia ser? Desde quando somos feitos de títulos? Desde quando eu sou as coisas que faço e possuo e não o amor e compaixão que carrego comigo?

Ainda assim sinto uma meia felicidade em todos os relacionamentos que mantenho, tenho medo de que descubram a farsa que sou, os farrapos que sobram de mim.

Hoje ajudar a minha irmã com a lição de casa terá que ser suficiente. Hoje assistir um filme depois de seguir uma live de fitness terá que ser o que me mantém animada. Hoje dormir e ouvindo um podcast em uma das línguas que falo vai ter que ser bom. Sem conversas com amigos, sem jantares, sem cervejas. Só silêncios.

Acordo e sinto uma solidão a qual há muito desconhecia. Que ironia que vir para casa me faria sentir assim que ironia que estar com a minha família de sangue me afastou da minha família de amigos.

Levanto. Café preto sem açucar, águar as plantas e viver a pandemia.

O bar do centro

Foi naquele bar, o bar do centro, que vivi muitas das histórias mais engraçadas e estranhas na minha experiência na escandinávia. Nesse bar sueco com garçons turcos que me cumprimentam em um português carregado de sotaque, chorei por um amor perdido mas também encontrei o amor.

Suas paredes marrons, o cheiro de creveja barata e uma clientela de velhos solitários se fez lar. Nunca pensei que seria assim mas muitas vezes, por que o destino o quis, ou por que o jovem estudante na Suécia não tem lá muitas opções para beber barato, acabamos fazendo morada em lugares estranhos a nossa própria natureza. Ora, a mim me atraia os jovens, a iluminação, o gargalhar e o que fosse mais distante da frieza e taciturnez sueca. O bar central representava exatamente o contrário: não havia jovens dançantes, especialmente no começo da noite, não havia gente sorridente com o qual podíamos flertar.

Era só depois das 01 da manhã, já ali há algumas horas e depois de alguns litros de cerveja, que o lugar se tornava mágico. A luz brilhava de um jeito diferente e a clientela rejuvenecia. O gargalhar se ouvia no andar de cima, mas era no andar de baixo que os corpos se moviam livremente, como corpos jovens deviam fazer. As vozes de Håkon e Carola eram substítuidas por J Balvin e Ozuna. Ojalá pudessemos ir para casa. Ojalá o espanhol e o português que escutávamos pudessem se escutar mais alto e com mais frequência. Não podiamos estar em casa, a casa pátria do sul do mundo, mas ali sentíamos-nos bem até às temidas 3 da manhã.

Às 3 da manhã aquele bar, tão central em Estocolmo, fechava suas portas e deixava a realidade adentrar suas portas: o frio do inverno ao norte do globo. O frio dos seus habitantes. A tristeza da sobriedade.

Acabava-se mais uma noite mágica, tão curta, tão insuficiente. Quase como uma droga, a felicidade das luzes, shots e gargalhadas nos traria de volta. A magia do encontro humano nos traria de volta, sempre, ao bar do centro.

Auto-cuidado

Agora. Eu me escondo, fecho as portas que outrora abri.

Não quero ser mártir, a mim não cabe esse adjetivo.

O amor divide-se na dor do que não foi vivido, na dor do que foi perdido.

Nada pessoal mas agora preciso de auto-cuidado, dos meus silêncios, dos meus vazios.

Sim, eu te dei muito e talvez agora o meu muito pareça pouco.

Mas é tudo que posso lhe dar. Agora.

Não sinto muito se não é suficiente, por que é tudo que tenho.

Já não penso em migalhar por atenção.

Sou eu a deixou seu coração, feito de gelo, em outro continente.

Ali, sem meus cuidados pode repartir-se a qualquer momento.

Foi eu que perdi um sonho. Sou eu que quase não tenho chão, que respiro um ar poluído de morte.

Ruas de sangue, nuvens de solidão. Agora.

O retorno

Será que o retornar vai se tornar mais fácil algum dia? Aceitar que a rotina mudou e que as ruas tão conhecidas também, aceitar que a vida que era ficou para trás?

Diferente do que talvez tenha sido há alguns anos, quando iniciei esse blog, dessa vez retornei ao Brasil com o coração mais tranquilo. É uma situação bizarra a que vivemos mundialmente então não posso dizer que as coisas estão normais. A tranquilidade porém me fortalece o bastante para entender o quão importante esse retorno é. Ainda que esteja em um país ainda mais quebrado por causa de um presidente inapto e uma pandemia mundial. Ainda que esteja em um país polarizado politicamente e tão diferente da Suécia no que se refere ao tratamento de seus cidadãos do que é possível. Ainda é casa, é aconhego e sons que me dão segurança.

Não espero me demorar aqui. Há tanto que amo no meu Brasil mas também há tanto que impossibilita que eu sonhe os sonhos que já sonhei aqui no momento atual. É contraditório que esse retorno signifique mais uma forma de me certificar de que de fato não pertenço mais aqui. Ou o aqui não me quer. Mata corpos como o meu, trata com violência e desgosto vozes como a minha.

Alguns dirão que é exatamente por isso que me faço necessária: a oposição precisa ser fortalecida, gritos de sanidade precisam ser dados. Ora, nunca pensei em ser mártir apesar de saber que tenho certo talento para tal. Hoje, aos meus 25 anos quero sonhar sonhos simples e viver uma vida chata na qual possa ter impacto positivo naqueles que estão próximos de mim.

O retorno se fez necessário, mas há um rebuliço de ideias e vontades de partir em mim.