Sobre ter o coração partido

A gente sabe que ter o coração partido dói. Sabemos por que todos nós já passamos por isso. É um sentimento em sua mais pura forma, irracional, desleal, feroz. Tudo o que foi verdade uma vez para aquelas duas (ou três)  pessoas não importa mais. E é por isso que escrevo sobre isso hoje.

É claro que já tive o meu coração quebrado algumas vezes, e nenhuma delas foi minha escolha. O futuro não nos pertence, e lembro-me claramente de ter pensado se teriado renunciado a todas as experiências boas que tive para evitar aquele único momento de dor. Momentos, por que é uma dor que pena a acabar. Algumas vezes meses, outras anos. Nunca sabemos quando estaremos curado, e o alívio quando vem é silencioso.

Hoje, novamente com os olhos avermelhados e a voz rouca de tristeza, eu digo que não, não deixaria de viver e crescer com aquilo que tive de maneira alguma. Com medo não vivemos, com medo deixamos de ser quem somos.

A essa fase que se encerra um brinde. Um brinde pelo aprendizado e pela força que me proporcionou. Um brinde a certeza de que somos capazes de nós reinventar e aprender a nos amarmos muitas e muitas vezes. E também por que somos capazes de abrir espaço para outras pessoas. Um brinde por que também somos bons e nos sentirmos suficientes, assim, só.

Só, dona de sonhos e de felicidades múltiplas. Só, eu.

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Coisas incríveis acontecem

Coisas incríveis acontecem.

Acontecem quando estamos dormindo e acontecem quando estamos trabalhando.

Acontecem quando estamos distraídos a caminho do trabalho e com certeza estão acontecendo enquanto escreve esse texto.

Sim, acontecem!

Constantemente me pego pensando em qual momento passei a saber a identificar esses momentos. Será que foi depois de alguns meses de universidade? Será que aprendi recentemente, acostumada com um ambiente cheio de frufus e regalias.

Coisas incríveis acontecem, mas não deveriam acontecer.

Deviam ser sinônimo de normalidade, de vento de liberdade, de coisa boa, que vem tão naturalmente como a chuva.

Pois é: penso que quando passamos a atribuir um valor a maior a coisas pequenas, ou mesmo coisas muito grandes perdemos a magnitude do que acontece.

Tudo de bom, e tudo de ruim deveriam ser parte de um canal normal da vida. Um canal no qual pegamos um pequeno bote e nos desafiamos a navegar.

Se temos ondas grades e caímos na água, sem ar, medo de sufocar e corpo gelado, logo já voltamos ao bote.

Penso também que não há nada mais incrível do que a certeza de a beleza de tudo está em fazer do grande pequeno, e do pequeno imensidão.

Ele se foi

Ele se foi.

Deixou felicidade e amor de presente, e não pediu nada de ninguém

Pegou suas ânsias e lágrimas, tudo aquilo que lhe traumatizava

Não queria causar mal,

nem a si nem a outros

Ele se foi

Foi tão repentino que não conseguia acreditar

Que um ser tão amado decidiu nos deixar

Eu que não sabia da dor que vivia

Senti uma dor tão grande que não consegui respirar

Queria que fosse mentira, que o coração parasse de me falar

Lá se foi mais um, que esse mundo não podia aguentar

Era muita luz, era muita verdade, era muito tudo

Para esse canto de maldade

Eu hoje tenho certeza de que sua beleza nunca nos abandonará

E esse poema agradeço pela sua curta presença nesse lugar

Apesar da dor ,

Você foi amor

e veio para nos transformar.

 

 

Obrigada Doug.

 

 

A descoberta

Ela sabia que tinha que fingir. Fingir que a ferida já tinha sarado e que seu coração não bateu mais forte com o sorriso juvenil dele. Mas ela também sabia que o turbilhão de sentimentos e pensamentos que lhe acometeram, tal qual uma doença repentina, pertenciam a uma pessoa que ela não conhecia, a uma Cléo que competia com outras mulheres e que se subestimava diante dos homens. Uma Cléo que via em um relacionamento monogâmico, um casamento ou namoro, o lado mais importante da vida de alguém.

Ora, foram 5 anos mas mesmo assim ela se lembrava perfeitamente da dor ao perdê-lo para uma outra pessoa querida, aquele que ela considerava ser o seu primeiro amor. Buscou motivos naquele primeiro momento para aquilo. Ela tinha sido muito honesta ao lhe contar sobre os seus sentimentos, tinha sido ainda mais honesta por tentar se afastar de todas as formas diante da rejeição. E então quando o interesse parecia ter se perdido e ele escolheu a outra, ela se sentiu traída da mesma forma.

Quando o reencontro ocorreu um misto de emoções lhe tomaram o coração: vergonha por se sentir atraída por alguém que estava em outro relacionamento. Vergonha por que ela mesma estava em um outro relacionamento – como o seu amado se sentiria se soubesse? – Medo de ter mentido a si mesma por tanto tempo. Medo de ser uma farsa.

Quando ele chegou achou que teria a chance de conhecer um outro ‘ele’ e mostrar-lhe a jovem madura e inteligente que ela havia se tornado. Refletindo nisso alguns dias depois riu. “Quanta besteira”, pensou, “querer impressionar alguém a quem pouco conheço.”

A descoberta, a grade descoberta, foi que sentimentos não são feridas. Não desparecem com o tempo, não melhoram com a aplicação de remédios e curativos. A descoberta de Cléo foi que o primeiro amor, sempre será o primeiro amor. E pela sua beleza, pela sua ingenuidade ela pôde enxergar todas as mudanças que a vida lhe trouxera: a mulher crítica diante de um mundo sexista e racista, a jovem que queria saber mais, estudar mais, se desafiar, e mais do que tudo, uma menina que amava a liberdade que tinha.

Uma mulher que se permite sentir. Amor não é um sentimento de exclusividade. Amor não se limita a desejo sexual e a vontade romantizada de dividir a vida com alguém. Há algo mais nesse sentimento que assusta aqueles que esperam estabilidade e uma vida sem conforto.

A liberdade que escolheu ter e que talvez não tivesse tido, se estivesse em um relacionamento desde cedo, lhe fez mais forte. A liberdade que lhe foi dada por uma vida bem vivida, por anos de experiências que lhe pertenciam e que deveriam ter acontecido exatamento do modo que ocorreram.

Beijos em homens, beijos em mulheres, bebida barata, alguns cigarros, som alto na rua e em festas, muitas horas ensinando, café e muitas outras horas estudando, solidão.

A descoberta de Cléo envolvia apreciar um caminho que a Cléo de 15 anos nunca escolheria. A trilha mais bela foi aquela com pedras gigantes e trechos escuros.

Cléo estava preparada para começa uma nova rota por que sabia, mais uma vez, que seria capaz de apreciar o caminho.

Livre. Livre.

Não ter voz

Não me basta falar

Quero ser ouvida

Não mais invisibilizada

Taxada de burra

Como posso ficar segura

Se a mim não escutam ?

Diminuem minha luta

Toda minha labuta

Mas será que é algo a ser dado?

Talvez seja algo a ser conquistado

E a mim requer coragem

Mais vontade para seguir em frente em uma longa viagem

De conhecimento e amor próprio

Com determinação e compaixão

Quando terei minha voz de volta?

Meu coração palpita

Não quero mais ser essa menina escondida

Mas temo

 

 

Como vivi!

O tempo deixou ela esquecida

Caiu janela, caiu porta

Mas ela não ficou sem vida

Sentimos a força de um passado diferente

Riso fácil, vida dificil

Para uns vida imponente

Para outros indiferente

Mas no fim, sim

Tempos de simplicidade

Amizade, fraternidade!

Ah, corriam as crianças, voavam as aves

Panela batendo, a lavoura nascendo

Ali não estive

Se estive não aprendi

Que o maior bem da vida

É vida que se leva

E no interior, como vivi!

Estou em lugar bom

Há 4 anos espero por esse exato momento: estar onde eu estou.

Como o tempo passou tão rápido? Não sei.

Não sou daquelas que se esquece dos desertos cruzados, por que finalmente estou no meu oásis.

Exagerados.

É fácil, agora com a mente lúcida longe daqueles hormônios que me deixavam maluca, reconhecer que estou bem. Estou em um bom lugar.

Um lugar em que a minha cabeca funciona racionalmente. Um lugar onde aceito sonhar. Ainda tenho medo, não se engane. Às vezes me falta ar por sentir tanto desgosto. Não fui ensinada a errar. Me dói o coracao, tanto que chega a tocar a minha alma. Então, de alguma forma, uma força me lembra de que tudo é passageiro. Dor, felicidade, amor. Tudo isso é, mas não será. E se o for, será diferente.

Vejo-me refletindo nos novos aprendizados, grandes metamorfoses, uma gestação de mim mesma. Com todas as dores dou vida a uma nova versão de mim.

Que ela continue sonhando. Que seja lúcida para entender que é boa demais para esse mundo. Todos nós somos.

Mas estou em lugar bom.

Eu o amo

Eu o amo. Eu o amo pelos seus cabelos pretos cuidadosamente cortados. Eu amo pela cor café com leite, que me lembra a minha própria cor. Eu amo por que tem cheiro de liberdade: a de poder encostar o meu rosto ao seu, e saber que tudo ficará bem. Eu amo por muitas coisas e isso me amedronta.

Que ser mulher não é fácil, todos nós sabemos. Mas ser mulher e amar é ainda mais díficil. Digo que aceitar o amor é uma luta árdua que travamos todos os dias, para acreditar que merecemos aquilo, e para desconstruirmos tudo aquilo que se espera de um relacionamento nos dias de hoje.

Mas, mesmo assim, eu o amo.

Até que o Natal chegue

O Natal,  e as festas de fim de ano, sempre são um momento de muito sentimentalismo. As memórias dos que partiram, ou a certeza da unicidade do momento vivido, são parte das coisas que nos deixam tão marcados por esse período. Será que estaremos com essas pessoas no próximo ano? Será que celebraremos mais vitórias ou pediremos por paciência, compreensão para as dificuldades encontradas no ano que passou?

Eu adoro a época de Natal. As frutas do fim do ano, o começo do verão, tudo isso me faz sentir capaz de começar de novo. Mas o dia do Natal é sempre melancólico.

No Brasil, sempre chove.

Assim como no dia dos Finados, me parece que aqueles que não estão presente decidem derramar suas lágrimas.  Sempre é muito abafado, o que me deixa desconfortável. Nos reunimos com pessoas com as quais estamos conectadas por laços de sangue, o que não significa que guardemos qualquer tipo de sentimento positivo por elas. De fato, há rancores que deixamos escondidos por um único dia, para que haja paz e para que acreditemos em uma chance de novo começo.

Assim seguimos para a ceia. Nos fartamos de comida, geralmente preparada pelas mulheres da família, e nos espalhamos pela sala, cozinha e quintal para conversarmos e digerirmos a comida. No fim, mais uma vez, as mulheres se dirigem a cozinha para dividir as tarefas a serem concluídas.

Não tocamos no nome de Deus ou de Jesus. É um fator secundário. A família, e os rituais que mantemos é o mais importante. Talvez um tia, ou uma tia mais religiosa, cite que a luz do mundo nasceu há 2017 anos nesse dia – mas geralmente não é feito.

Digo a mim mesma que amo o Natal. Na minha cabeça enúmero as razões. O sentimento fraternal, a vontade de fazer o melhor pelo próximo, a felicidade das crianças com os presentes, a ideia da vinda do Papai Noel. Nenhuma delas está relacionada com o dia de Natal.

Quiça quando mais velha me sinta parte de algo maior ao ver a família reunida, em uma casa com quintal grande e o tempo abafado. Quiça a ideia de um salvador nascido nesse dia se fortaleza e a celebração alcance um outro significado.

Por agora muitos sentimentos me passam pela cabeça, e no dia 25 de dezembro o maior que tennho é que aquilo acabe. Que venha outro dezembro onde mais uma vez amarei com todo o meu corpo os enfeites natalinos, as cores do Natal e todo afeto que tenho por essa temporada. Até que o Natal chegue.

 

Livros não lidos

Olhinhos atentos a prateleira a sua frente. Ah, que imagem bonita! Podiam ser sobre eletrônica, física quântica, suspenses antiguíssimos, não lhe importava – eram livros enormes, com páginas que cheiravam a passeios no parque, tardes melancólicas na rede, e a distração para o trabalho. Ela sentia como se cada um daqueles livros fosse a alma para um mundo novo, e era só deles que precisava.

Da prateleira com enciclopédias na casa dos avós, passou as prateleiras das casas de livros de segunda mão. Ainda não podia comprar livros cheirando a novo, mas não lhe importava pois os seus favoritos sempre foram aqueles que carregavam mais história consigo. Todos aqueles que tinham cheiro de anos de leitura, que tinham passado por quartos de leitura, escritórios, uma caixa escondida no quarto de bagunça. Esses lhe agradavam mais. Ela sentia o coração das pessoas que os haviam lido. E sentia de tudo!

Havia namoros rompidos que resultavam em livros, outrora presentes, largados pela loja. Havia livros que  ainda que comprados com muito amor, seguindo o ciclo do universo, paravam nas mãos de pessoas amorosas ali. E havia as histórias tristonhas dos enjeitados, que tão pouco foram abertos, foram deixados de lado.

Ela podia viver ali para sempre.

Mas não é assim que as coisas andam. Das lojas de livros usados passou também a frequentar as lojas com os livros novos. Cheiravam a papel recém impresso, um pouco como cola quando grudada na mão. Não lhes amava como os outros, não tinham histórias para contar.

Ainda sim, havia sempre um desafio em ser a primeira a construir uma história com esses. Um pedaço especial. Seriam dela as primeiras lágrimas nas páginas em branco das obras. Também seriam da menina as primeiras orelhas e arranhões.

Muito lhe entristecia pensar em todos os livros que não poderia ler. A eles desejava que encontrassem uma mente tão ansiosa como a dela, a eles desejava o calor de uma tarde de primavera com alguém.