Não ter voz

Não me basta falar

Quero ser ouvida

Não mais invisibilizada

Taxada de burra

Como posso ficar segura

Se a mim não escutam ?

Diminuem minha luta

Toda minha labuta

Mas será que é algo a ser dado?

Talvez seja algo a ser conquistado

E a mim requer coragem

Mais vontade para seguir em frente em uma longa viagem

De conhecimento e amor próprio

Com determinação e compaixão

Quando terei minha voz de volta?

Meu coração palpita

Não quero mais ser essa menina escondida

Mas temo

 

 

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Como vivi!

O tempo deixou ela esquecida

Caiu janela, caiu porta

Mas ela não ficou sem vida

Sentimos a força de um passado diferente

Riso fácil, vida dificil

Para uns vida imponente

Para outros indiferente

Mas no fim, sim

Tempos de simplicidade

Amizade, fraternidade!

Ah, corriam as crianças, voavam as aves

Panela batendo, a lavoura nascendo

Ali não estive

Se estive não aprendi

Que o maior bem da vida

É vida que se leva

E no interior, como vivi!

Estou em lugar bom

Há 4 anos espero por esse exato momento: estar onde eu estou.

Como o tempo passou tão rápido? Não sei.

Não sou daquelas que se esquece dos desertos cruzados, por que finalmente estou no meu oásis.

Exagerados.

É fácil, agora com a mente lúcida longe daqueles hormônios que me deixavam maluca, reconhecer que estou bem. Estou em um bom lugar.

Um lugar em que a minha cabeca funciona racionalmente. Um lugar onde aceito sonhar. Ainda tenho medo, não se engane. Às vezes me falta ar por sentir tanto desgosto. Não fui ensinada a errar. Me dói o coracao, tanto que chega a tocar a minha alma. Então, de alguma forma, uma força me lembra de que tudo é passageiro. Dor, felicidade, amor. Tudo isso é, mas não será. E se o for, será diferente.

Vejo-me refletindo nos novos aprendizados, grandes metamorfoses, uma gestação de mim mesma. Com todas as dores dou vida a uma nova versão de mim.

Que ela continue sonhando. Que seja lúcida para entender que é boa demais para esse mundo. Todos nós somos.

Mas estou em lugar bom.

Eu o amo

Eu o amo. Eu o amo pelos seus cabelos pretos cuidadosamente cortados. Eu amo pela cor café com leite, que me lembra a minha própria cor. Eu amo por que tem cheiro de liberdade: a de poder encostar o meu rosto ao seu, e saber que tudo ficará bem. Eu amo por muitas coisas e isso me amedronta.

Que ser mulher não é fácil, todos nós sabemos. Mas ser mulher e amar é ainda mais díficil. Digo que aceitar o amor é uma luta árdua que travamos todos os dias, para acreditar que merecemos aquilo, e para desconstruirmos tudo aquilo que se espera de um relacionamento nos dias de hoje.

Mas, mesmo assim, eu o amo.

Até que o Natal chegue

O Natal,  e as festas de fim de ano, sempre são um momento de muito sentimentalismo. As memórias dos que partiram, ou a certeza da unicidade do momento vivido, são parte das coisas que nos deixam tão marcados por esse período. Será que estaremos com essas pessoas no próximo ano? Será que celebraremos mais vitórias ou pediremos por paciência, compreensão para as dificuldades encontradas no ano que passou?

Eu adoro a época de Natal. As frutas do fim do ano, o começo do verão, tudo isso me faz sentir capaz de começar de novo. Mas o dia do Natal é sempre melancólico.

No Brasil, sempre chove.

Assim como no dia dos Finados, me parece que aqueles que não estão presente decidem derramar suas lágrimas.  Sempre é muito abafado, o que me deixa desconfortável. Nos reunimos com pessoas com as quais estamos conectadas por laços de sangue, o que não significa que guardemos qualquer tipo de sentimento positivo por elas. De fato, há rancores que deixamos escondidos por um único dia, para que haja paz e para que acreditemos em uma chance de novo começo.

Assim seguimos para a ceia. Nos fartamos de comida, geralmente preparada pelas mulheres da família, e nos espalhamos pela sala, cozinha e quintal para conversarmos e digerirmos a comida. No fim, mais uma vez, as mulheres se dirigem a cozinha para dividir as tarefas a serem concluídas.

Não tocamos no nome de Deus ou de Jesus. É um fator secundário. A família, e os rituais que mantemos é o mais importante. Talvez um tia, ou uma tia mais religiosa, cite que a luz do mundo nasceu há 2017 anos nesse dia – mas geralmente não é feito.

Digo a mim mesma que amo o Natal. Na minha cabeça enúmero as razões. O sentimento fraternal, a vontade de fazer o melhor pelo próximo, a felicidade das crianças com os presentes, a ideia da vinda do Papai Noel. Nenhuma delas está relacionada com o dia de Natal.

Quiça quando mais velha me sinta parte de algo maior ao ver a família reunida, em uma casa com quintal grande e o tempo abafado. Quiça a ideia de um salvador nascido nesse dia se fortaleza e a celebração alcance um outro significado.

Por agora muitos sentimentos me passam pela cabeça, e no dia 25 de dezembro o maior que tennho é que aquilo acabe. Que venha outro dezembro onde mais uma vez amarei com todo o meu corpo os enfeites natalinos, as cores do Natal e todo afeto que tenho por essa temporada. Até que o Natal chegue.

 

Livros não lidos

Olhinhos atentos a prateleira a sua frente. Ah, que imagem bonita! Podiam ser sobre eletrônica, física quântica, suspenses antiguíssimos, não lhe importava – eram livros enormes, com páginas que cheiravam a passeios no parque, tardes melancólicas na rede, e a distração para o trabalho. Ela sentia como se cada um daqueles livros fosse a alma para um mundo novo, e era só deles que precisava.

Da prateleira com enciclopédias na casa dos avós, passou as prateleiras das casas de livros de segunda mão. Ainda não podia comprar livros cheirando a novo, mas não lhe importava pois os seus favoritos sempre foram aqueles que carregavam mais história consigo. Todos aqueles que tinham cheiro de anos de leitura, que tinham passado por quartos de leitura, escritórios, uma caixa escondida no quarto de bagunça. Esses lhe agradavam mais. Ela sentia o coração das pessoas que os haviam lido. E sentia de tudo!

Havia namoros rompidos que resultavam em livros, outrora presentes, largados pela loja. Havia livros que  ainda que comprados com muito amor, seguindo o ciclo do universo, paravam nas mãos de pessoas amorosas ali. E havia as histórias tristonhas dos enjeitados, que tão pouco foram abertos, foram deixados de lado.

Ela podia viver ali para sempre.

Mas não é assim que as coisas andam. Das lojas de livros usados passou também a frequentar as lojas com os livros novos. Cheiravam a papel recém impresso, um pouco como cola quando grudada na mão. Não lhes amava como os outros, não tinham histórias para contar.

Ainda sim, havia sempre um desafio em ser a primeira a construir uma história com esses. Um pedaço especial. Seriam dela as primeiras lágrimas nas páginas em branco das obras. Também seriam da menina as primeiras orelhas e arranhões.

Muito lhe entristecia pensar em todos os livros que não poderia ler. A eles desejava que encontrassem uma mente tão ansiosa como a dela, a eles desejava o calor de uma tarde de primavera com alguém.

 

Em busca de mim

Já se foram 5 anos. Talvez mais do que isso. Nem sei. Já se foram universos inteiros, memórias que caberiam em mais do que o tempo humano pode computar. Já se foi há muito tempo que me perdi.

Quando nascemos temos a coragem de conquistar o mundo, temos um brilho que ninguém pode nos tirar. Nem o sorriso ciníco dos incrédulos, nem o medo de que os passos sejam maiores do que a rota.

E lá estava: com a certeza de que os orixás, o universo, ou o que chamam de Deus, estavam de acordo com os meus planos. Certamente muitas coisas estavam por vir, mesmo diante do medo de falhar me via envolta de felicidade genuína. A certeza da boa luta, a certeza do ganho no fim.

Não sei bem se estou cansada ou desiludida. Mas há tanto tempo não escrevo, que percebo que algo mudou. Sem a escrita não respiraria, sem ela não seria quem sou. Eu me perdia, e ela estava ali  como a bússola que me levaria pela busca de mim. Em um algum momento, porém, a deixei.

Será que crescer significa não acreditar? Ter a certeza de se que se faz o que se tem que ser feito pois a recompensa é o que se há para viver no presente.

Privilegiada, sim. Dotada da habilidade de sonhar. Mais do que isso, de um ambiente que, apesar de muito duro por vezes, me proporcionou asas que me levaram longe.

Sinto falta do eu que era quando mais jovem. Da resposta certeira as pedras no caminho, do fé inabalável na alma do universo. Mas também já não sou a mesma. Passei de menina a mulher com as dores e amores da vida adulta.

Queria que tivesse restado o coração ingênuo e aberto ao mundo que tinha.

Mas no fim, resto ainda em busca de mim.

Bloqueio de escrita

Olha, eles dizem que isso acontece com todos.

Eu tenho um tique de estresse no meu olho. Eu tenho contas a pagar, eu tenho uma pilha de louça suja a ser lavada.

Eu tenho uma vida incompleta e aí, não me resta tempo para escrever.

Se é consequência do amadurecimento? Penso que não. Talvez meu coração tenha se tornado mais insensível.

Ah! Eu sentia tanta coisa. Tudo estava ali para ser sentido e escrito. E o que não estava ali para ser sentido, pelo menos poderia ser escrito.

Não há nada mais patético do que o medo de que esses 2 anos, se tornem 3, e então que durem a minha vida toda. Esse medo de que a minha validade no mundo da escrita tenha expirado. Com 6 anos já me sentia inspirada a dizer tudo o quanto podia sobre as coisas que via e aconteciam ao meu redor. Ainda não sabia tantas palavras quanto gostaria, mas usava as que sabia com vontade. Talvez tenha gastado o meu léxico todo nos 15 anos que seguiram, foram 15 anos de muitas aspirações e pensamentos grandiosos, precisei de muitas palavras.

Não sei se viverei pouco ou muito. Só sei que em quanto viver quero escrever. Quero contar histórias minhas e de outros. Quero criticar aquilo que me incomoda e tecer elogios ao que vejo de mais bonito na humanidade. Mas ainda há esperança. Em meio a loucura do mundo eu creio que a escritora em mim está lá, esperando um pedaço de papel e uma caneta para que o novo possa ser escrito.

Afinal, eles dizem que isso acontece com todos.

Aqui

Aqui não sei.

Não sei se me deixo desamarrada, livre, dos interesses do mundo em mim.

Aqui me pergunto se o que faço me enche a alma, se eleva o meu espírito e faz com que a minha vida seja um pouco menos como o que ela de fato é, e um pouco mais como nos filmes.

Aqui me vendem felicidade instantânea, razão pela qual escrevo: sou escrava da infelicidade. Escrava de momentos longos de espera, escrava da monotonia de uma vida simples e me sinto mal por isso, aqui. Forço um sorriso de aceitação a estrutura desenfreada a qual me querem empurrar, ora, ora, eu sei, você sabe: é tudo uma farsa.

Quando sozinha repenso aquilo que sou, o fato de ter alcançado tanto mas ao mesmo tempo tão pouco. Um dia me foi dito: “aquilo que alcançou é o que deve usar como medida para suas ambições, tem que chegar cada vez mais longe do que um dia estivera”. Mas ora, o que pode querer uma menina simples dos subúrbios? Que ambições lhe são próprias a sua existência e quais lhe são enfiadas goela abaixo?

Todos os sons da rua, carros passando no chão de terra, o rádio do vizinho no som máximo, crianças que choram por um doce, água correndo, panela de pressão no fogo, são os sons que me deram. Mas já não estão aqui. Estão lá, junto com a ingenuidade que tinha na cabeça um futuro bonito, mas sem pompa, sem excessos, e sem solidão.

Aqui contemplo que me questionar sobre o que sou já é muito, um passo a frente da onde estive. Sei que a incerteza não me paralisará, mas por quanto tempo mais me contentarei com esses pensamentos mundanos e desafios tão simples?

Abatida

Sentada no balcão. Olhar distante, semblante frio. O café fumegante deixava a sua figura mais fantasmagórica. “Deus me livre” diria dona Maria “uma moça tão bonita sozinha assim, com essa cara de tristeza, dá até pena”.

Quem seria ela? Ela que tomava o primeiro café do dia, todos os dias. Não aparecia aos domingos!, quando diziam, ia a missa.

Ela. Ela tinha medo, mais do que tudo. A vida bruta na rua havia tirado-lhe toda felicidade. Se soubessem ao que se submetia todos os dias, as tormentas que tinha que suprimir com o café forte e o pão seco que pedia, para economizar um pouco.

Ela. Ela sabia que ir a missa não a faria ser perdoada. Não acreditava em Deus, não o Deus do qual sua mãe lhe falava antes de deixá-la para fugir da cidade com o amante. Por que esse fulano só punia as pessoas ruins, e ela tinha sido boa com todos. Só resolveu dar o troco na vida, viver ao seu modo, quando já não suportava o vazio, a falta de quereres e viveres da sua própria alma.

Se temos vida, temos que vivê-la! Pois pronto.

Eles a viam todos os dias. Será que sentia frio com o vestido curto? Será que estaria cansada antes de ir trabalhar? Por que tão triste.

Nunca ousaram-lhe perguntar. Somente quando com seu sumiço, a sua figura esbranquiçada quase transparente desapareceu por completo, que passaram-na a procurar.

Talvez uma forma de ter certeza de que ela realmente existia, e de que eles próprios também.

Não tomou seu café naquele dia. Também não no outro. E no domingo, já não a viram na missa.

Mas a esqueceram. Como fazem sempre com mulheres que decidem viver: ela foi castigada por isso. Deixaram-na morrer, e tudo aquilo de bonito nela também se foi dessa existência. Do seu canto na padaria só sobraria o cheiro do café e um resquício de memória que dizia que algo estava errado. Da suas idas a missa só a velhinha que alimentava os pombos se lembraria da menina: quanta beleza

Ela. Ela não saberia que sua existência era muito mais infinita do que tudo isso.