Bloqueio de escrita

Olha, eles dizem que isso acontece com todos.

Eu tenho um tique de estresse no meu olho. Eu tenho contas a pagar, eu tenho uma pilha de louça suja a ser lavada.

Eu tenho uma vida incompleta e aí, não me resta tempo para escrever.

Se é consequência do amadurecimento? Penso que não. Talvez meu coração tenha se tornado mais insensível.

Ah! Eu sentia tanta coisa. Tudo estava ali para ser sentido e escrito. E o que não estava ali para ser sentido, pelo menos poderia ser escrito.

Não há nada mais patético do que o medo de que esses 2 anos, se tornem 3, e então que durem a minha vida toda. Esse medo de que a minha validade no mundo da escrita tenha expirado. Com 6 anos já me sentia inspirada a dizer tudo o quanto podia sobre as coisas que via e aconteciam ao meu redor. Ainda não sabia tantas palavras quanto gostaria, mas usava as que sabia com vontade. Talvez tenha gastado o meu léxico todo nos 15 anos que seguiram, foram 15 anos de muitas aspirações e pensamentos grandiosos, precisei de muitas palavras.

Não sei se viverei pouco ou muito. Só sei que em quanto viver quero escrever. Quero contar histórias minhas e de outros. Quero criticar aquilo que me incomoda e tecer elogios ao que vejo de mais bonito na humanidade. Mas ainda há esperança. Em meio a loucura do mundo eu creio que a escritora em mim está lá, esperando um pedaço de papel e uma caneta para que o novo possa ser escrito.

Afinal, eles dizem que isso acontece com todos.

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Aqui

Aqui não sei.

Não sei se me deixo desamarrada, livre, dos interesses do mundo em mim.

Aqui me pergunto se o que faço me enche a alma, se eleva o meu espírito e faz com que a minha vida seja um pouco menos como o que ela de fato é, e um pouco mais como nos filmes.

Aqui me vendem felicidade instantânea, razão pela qual escrevo: sou escrava da infelicidade. Escrava de momentos longos de espera, escrava da monotonia de uma vida simples e me sinto mal por isso, aqui. Forço um sorriso de aceitação a estrutura desenfreada a qual me querem empurrar, ora, ora, eu sei, você sabe: é tudo uma farsa.

Quando sozinha repenso aquilo que sou, o fato de ter alcançado tanto mas ao mesmo tempo tão pouco. Um dia me foi dito: “aquilo que alcançou é o que deve usar como medida para suas ambições, tem que chegar cada vez mais longe do que um dia estivera”. Mas ora, o que pode querer uma menina simples dos subúrbios? Que ambições lhe são próprias a sua existência e quais lhe são enfiadas goela abaixo?

Todos os sons da rua, carros passando no chão de terra, o rádio do vizinho no som máximo, crianças que choram por um doce, água correndo, panela de pressão no fogo, são os sons que me deram. Mas já não estão aqui. Estão lá, junto com a ingenuidade que tinha na cabeça um futuro bonito, mas sem pompa, sem excessos, e sem solidão.

Aqui contemplo que me questionar sobre o que sou já é muito, um passo a frente da onde estive. Sei que a incerteza não me paralisará, mas por quanto tempo mais me contentarei com esses pensamentos mundanos e desafios tão simples?

Abatida

Sentada no balcão. Olhar distante, semblante frio. O café fumegante deixava a sua figura mais fantasmagórica. “Deus me livre” diria dona Maria “uma moça tão bonita sozinha assim, com essa cara de tristeza, dá até pena”.

Quem seria ela? Ela que tomava o primeiro café do dia, todos os dias. Não aparecia aos domingos!, quando diziam, ia a missa.

Ela. Ela tinha medo, mais do que tudo. A vida bruta na rua havia tirado-lhe toda felicidade. Se soubessem ao que se submetia todos os dias, as tormentas que tinha que suprimir com o café forte e o pão seco que pedia, para economizar um pouco.

Ela. Ela sabia que ir a missa não a faria ser perdoada. Não acreditava em Deus, não o Deus do qual sua mãe lhe falava antes de deixá-la para fugir da cidade com o amante. Por que esse fulano só punia as pessoas ruins, e ela tinha sido boa com todos. Só resolveu dar o troco na vida, viver ao seu modo, quando já não suportava o vazio, a falta de quereres e viveres da sua própria alma.

Se temos vida, temos que vivê-la! Pois pronto.

Eles a viam todos os dias. Será que sentia frio com o vestido curto? Será que estaria cansada antes de ir trabalhar? Por que tão triste.

Nunca ousaram-lhe perguntar. Somente quando com seu sumiço, a sua figura esbranquiçada quase transparente desapareceu por completo, que passaram-na a procurar.

Talvez uma forma de ter certeza de que ela realmente existia, e de que eles próprios também.

Não tomou seu café naquele dia. Também não no outro. E no domingo, já não a viram na missa.

Mas a esqueceram. Como fazem sempre com mulheres que decidem viver: ela foi castigada por isso. Deixaram-na morrer, e tudo aquilo de bonito nela também se foi dessa existência. Do seu canto na padaria só sobraria o cheiro do café e um resquício de memória que dizia que algo estava errado. Da suas idas a missa só a velhinha que alimentava os pombos se lembraria da menina: quanta beleza

Ela. Ela não saberia que sua existência era muito mais infinita do que tudo isso.

Seu João da beira do rio

Sua barba a roçar

Ah que vontade de nadar!

Vô você que busca o sol?

Assim como o pão que traz em mão

surge o sol e minha

vontade urge

Urge o bater das asas

os pombos e passáros

mas já não ligo

digo

Me perco nas histórias

na sala, bala

de canhão e de canela

a ela, rainha da Inglaterra

mais que história fantástica

mágica!

Vó a preparar o feijão,

do chão observo o seu

andar, passear, vaguear,

pelo seu reino sempre

ameno e cheio de afazeres,

deveres

bugingangas com as quais

brincamos de gincanas e

ela, ela encana

A noite chega e posso sentir

flor de laranjeira, na beira

na beira do rio, sorrio

Seu João da Beira do rio,

sorrio…

sorrio…

sorriu e partiu.

I see

I see

They say we’re the same

that we got the same

opportunities and help

hell not dumbass!

I see, I see white skin

I see, I see white faces

White, I see white

I feel lonely. White lonely.

Why can´t I be loved mom?

Am I too different?

They say: you got gorgeous eyes!

They say: look at this butt!

I see, I see objectification

I see, I see luxury.

But man, I just wanted to feel loved

Dot.

Siters, Brothers.

They say we’re not worthy

You feel lonely

No sister, don´t do

Your face is the memory of a past we aren’t hiding

Yeah sister, there, back then

Happiness, joy, dance

Ubuntu! Axé!

Ancestry.

They want to hide it,

they want you to forget it,

Don’t let it!

Breath, close your eyes.

Back then we were queens.

Then tears. Pain.

Oh the cotton fields!

“You won’t have me! no! no!’

Those are also memories of the unforgivable

unforgettable

unbelievable

The biggest crime in earth. Genocide

Genocide. I see. I see. Genocide.

Mike Brown, I’m sorry.

Claudia Maria, I am sorry.

Sister, I’m sorry for your son.

They say: “Hands where I can see”

They say “Shut up nigger”

I see struggle! I see…

I see, I see fight

Oh sister,

don’t turn your back to your power

Oh sister,

you’re powerful.

I see, I see you.

And now, you’re not alone.

 

Um dos meus poemas perdidos em um dos meus diários.

A volta

Quando iniciei esse blog há 2 anos esperava me reconectar com o Brasil e o português. Após 2 anos fora, um deles em que meu contato com a língua se deu muito raramente, sentia que aquilo que uma vez amei fazer tinha ficado escondida em um baú empoeirado de histórias e sonhos da minha pré-adolescência. Escrever fora parte essencial do que me tornaria então.

Volto então a colocar as mãos nesse projeto, que será agora um projeto pessoal mais amplo: palavras em português, em inglês, e em qualquer língua que me coração sinta querer se expressar. Palavras sobre tudo, tudo aquilo que me inquieta.

Estamos voltando. Voltando a uma trilha que preciso trilhar: manter-me em contato comigo, com as minhas paixões e dúvidas.

Abalam mais não deixam nossos neurônios cativos...

“Não fomos vencidas pela anulação social,
Sobrevivemos à ausência na novela, no comercial;
O sistema pode até me transformar em empregada,
Mas não pode me fazer raciocinar como criada;
Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo,
As negras duelam pra vencer o machismo,
O preconceito, o racismo;
Lutam pra reverter o processo de aniquilação
Que encarcera afros descendentes em cubículos na prisão;
Não existe lei maria da penha que nos proteja,
Da violência de nos submeter aos cargos de limpeza;
De ler nos banheiros das faculdades hitleristas,
Fora macacos cotistas;
Pelo processo branqueador não sou a beleza padrão,
Mas na lei dos justos sou a personificação da determinação;”

Abalam mais não deixam nossos neurônios cativos…

Fluindo, criando

Caderno em mãos,

sorriso no rosto

sou eu

 

eu sou

rosto no sorriso

mãos em cadernO

 

Você me gusta

me gusta seus cabelos

me gusta sua vontade de falar

 

falar de vontade sua gusta me

cabelos seus gusta me

gusta me vocÊ

 

Pretty blue flores

voando no meu blue sky

blue butterflies

 

butterflies blue

sky blue meu voando

flores blue prettY

 

Nem sempre o convencional é bonito. A mistura da língua com outras dá vida a minha língua de forma desconexa, sem sentido. Mas que sentido tem a língua se não ser ela falada, escrita e escutada?

Diálogo entre gerações: ancestralidade é vida!

“O meu povo tem histórias que eu preciso contar. O meu povo tem histórias de cantos, de reis e rainhas vindos de um continente longe e belo. Açoitados, humilhados, privados de sua cultura. Mas o meu povo! Ah o meu povo! O meu povo é forte, se ergue, luta contra tudo aquilo que o quer derrubar”

”  Nunca sofri racismo, até por que: não sou preto!”

” Mulato, moreno, criolo, preto: já ouvi tantos nomes. Parece que as pessoas tem medo de falar que são negras: que é algo errado. Não é xingamento, sou negro! Tenho sangue africano correndo aqui, tenha a marca da escravidão tão viva quanto qualquer outra característica minha. Essa marca está comigo quando sou aceito para entrevistas, mas me olham com desconfiança, quando os táxis não param para eu e minha esposa, quando me olham pelo canto dos olhos nos restaurantes.”

“Racismo está nos olhos de quem vê! Acha que racismo existe no Brasil? Aqui não! Preto, branco, todos juntos. Racismo é coisa de gringo, aqui não tem isso não.”

” Mataram o meu filho! Mataram o meu filho! Todos os dias nós, gente simples da favela, temos que assistir uma polícia racista e ineficiente assassinando nossos filhos por que eles são suspeitos! Suspeitos de que meu Deus? De ser pobre? De ter sonhos?!”

” Acho errado essa história de rolêzinho…Na biblioteca ninguém quer dar rolê, é ? É desculpa para fazer arruaça, roubar e causar pânico.”

“Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje! “

” Não sou racista! Tenho até amigos morenos. Só não acho que a minha filha ia fazer um par bonito com um menino de cor”

“É difícil. Difícil criar minha família em uma sociedade tão errada. Que dor é ver um ser que você ama e carregou por nove meses se odiando, querendo ser qualquer outra pessoa por causa dos seus traços, sua cor. Ela queria ser paquita sabe, e eu digo para ela que ela poderia se quisesse… é mentira, claro, mas preciso dar o meu melhor para se esfoçar.Eu tento mostrar para ela que somos diferente, mas as vozes de fora são mais fortes, são muitas. Não vou desistir!”

” Somos todos macacos!”

” É assim, o sinhô açoita a gente se não coletar o tanto de cana que ele quer. Se dói? Ah, dói! e ele passa uma mistura de sal e vinagre para não inflamar sabe… Esse povo branco acha que não temos alma, que a gente não sofre. Filha, tem 20 anos que estou nessa fazenda, e rezo para Deus todo dia para ele reconhecer que somos humanos, não animais de carga, sem alma. Dói… dói muito. “

“Cotas não são necessárias, todo mundo tem a mesma capacidade!”

“Eu sabia que teria que lutar para poder estudar. Aquela gente não me queria ali, aquela gente não via que era tão humana quanto eles. Aquela gente me chamava de animal, macaco, nigger. Mas sabe? Vou continuar lutando para provar que a minha cor não me faz menos humana!”

 

 

 

 

Saudades

Saudades. Sau-da-des.

Com o ‘s’ puxado do carioca ou seco do paulistano, com a emoção do baiano ou as poucas palavras do gaúcho: saudades é sempre saudades.

O sentimento mais comum no mundo, logo depois de amor, expresso em uma única palavra, expresso de forma tão única que nem mesmo nós lusófonos podemos expressar totalmente o que a saudade é, como ela sente. ‘O sentir falta de algo, ou alguém’. Saudades de um cheiro, de uma memória,de um tempo. Uma nostalgia inebriante, irreversível.

Quanto a tenho comigo o presente parece não passar, ao mesmo tempo que o passado parece tão longe e belo. Quanto a tenho comigo meus olhos se fecham para as belezas do meu mundo, e também redescobre outras que ficaram para trás.

Ah saudade, não me castigue! já diziam os poetas, as damas e cavalheiros de tempos remotos. Os apaixonados e despatriados, aqueles que busca de um não sei o quê, não sei onde. Nessa procura continuo me deliciando com essa palavra que dói e desperta vontades terríveis; que me leva a loucura por um tempo gigantesco, quase infinito. Mas quando ela vai, quando ela me deixa, o seu doce som fica, assim como a beleza da chegada ou da partida.

Saudades. Vá, mas volte, por que assim sei que aquilo que ficou valeu a pena. Na minha velhice a terei como companheira e agora a tenho como consequência de lindos dias ao sol em um terra tão bela que parece feita de faz de conta.

Fique.