A Copa do João

João sempre amara futebol. Que loucura eram os campeonatos de rua, as horas discutindo os melhores jogadores do campeonato Brasileiro com os amiguinhos e colegas de classe. Às vezes ele não conseguia assistir o jogo no domingo por que seu pai bebia um pouco demais, esbracejava e ameaçava o acertar com o seu chinelo,  às vezes sua mãe o colocava na cama mais cedo para que ele e seus irmãos não pedissem comida e ela pudesse preparar o jantar só para o seu pai com os restos que tinham, mas ele ainda amava futebol!

Então ele ouviu na TV que a melhor coisa que alguém como ele poderia pedir estava prestes a acontecer: a Copa do Mundo! Bem ali do ladinho dele. Todos os maiores jogadores do mundo estariam no seu país por algum tempo. Seus olhos pretinhos como a sua pele brilhavam de felicidade. Agora ele tinha que conseguir ir em um dos jogos! Mas como? Se sua mãe passava e lavava a semana inteira, e seu pai trabalhava um montão mas nunca sobrava nem um pouquinho para ele e seus irmãos? Talvez se vendesse doces no farol como muitos dos seus amigos faziam ele conseguisse juntar um pouco de dinheiro. Também poderia pedir esmolas com um outro grupo de conhecidos, mas se seus pais descobrissem ele estaria mais do que encrencado.

Um dia ao voltar da escola já tarde, no caminho de terra batida que tinha que percorrer todos os dias e que estava sempre vazio, João avistou uma nota. Duas notas. Três notas. Quantas notas bonitas! Notas que ele nunca tinha visto antes, mas que pelo pouco conhecimento que tinha sabia que valiam muito. Talvez valessem até um ingresso para assistir um jogo! João escondeu as notas rapidamente, e seguiu caminho com um sorriso no rosto e na alma.

Já dormia João no seu colchão velho e fino, quando ouviu os gritos na vizinhança. Sabia que algo estranho estava acontecendo por que seus pais que quase nunca conversavam discutiam sussurrando algo um outro dia quando ele chegara da escola. Os meninos mais velhos do que ele já não jogavam mais futebol a tarde por que diziam que tinham que ‘tomar cuidado da casa da das nossas coisas’. Era manhãzinha, tão manhã que o sol nem havia nascido direito. Tratores e gente da lei, todos estavam lá. Diziam que todo mundo tinha que sair por que aquela área ali era área de construção para Copa. João não entendia, desde bem pequenino estivera ali. Desde sempre aquilo pertencera a gente dele, e agora eles queriam tirar ele dali? E por causa da Copa? Que diabos Cristiano Ronaldo, Messi e qualquer outra pessoa iria querer com os barracos onde eles moravam?

Quanta gritaria. Não tinha jeito. O choro, as lamurias. Tudo que estava ali aquela gente tinha levado uma vida para construir. Suor, dor, muitas histórias. Talvez aquilo não fosse por lei deles, talvez tivesse pertencido ao governo, ao um dono que nunca havia reclamado aquilo, mas agora era deles. Como não?

Aquilo era tudo culpa da Copa, culpa do futebol, culpa dessa gente que tinha vindo lhe roubar, pensou João. Não tinha casa, não teve nem mesmo um teto para dormir naquele dia. Com as coisas em trouxas, o rosto sujo de catarro e lágrimas de tanto chorar, sua família seguiu a procura de um lugar para dormir. Talvez um viaduto, um ponto de ônibus onde a ventania fosse menos forte.

João ainda tinha as notas bonitas guardadas, mas agora elas não tinha mais valia. Ele preferia não assistir a Copa. Aqueles não eram mais os seus ídolos.

– Toma pai, pra ajudar nós montar outra casa.

– Mas Jão! Onde cê achou esse dinheiro todo?

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Diálogo com o tempo

– É isso então.

– Sim, é isso.

– Você vai sempre andar mais rápido do que eu, nunca vai me permitir mudar nada, nunca vai estar comigo. Como é que posso te amar dessa maneira?

– Você não tem que me amar querida, você tem que me aceitar. Aceita que eu vou estar sempre um passo a frente de ti, aceita que eu vou lhe trazer questionamentos e dores, mas também muitas, muitas experiências que te farão feliz. Aceita, que aprenderá a me amar.

– Eu não posso ser feliz sabendo que não queres estar ao meu lado.

– Estou sempre ao seu lado. Nesse momento. E no segundo antes dele. Mas você tem que se acostumar com a ideia de que, querida, esse momento é importante. Agora. És o que és, e isso não poderei mudar estando ao teu lado ou não.

– Não sei, não sei. Fala como se fosse fácil não querer ter-te aqui.

– As coisas se passam contigo agora, não a frente. Expliquei-te. Estou aqui. Você não o vê. Quer crer que estar a frente comigo ou atrás em certas ocasiões, aquelas que te deixaram satisfeitas é o melhor. Mas eu também estive lá, naquele momento, e você não me agradeceste ou nem mesmo se mostrara agradecida, não pode viver assim.

Ela mexeu a xícara de café a sua frente, franziu a testa como se quisesse deixar a discussão para uma outra hora. Já refletira sobre aquilo, já tentara entendê-lo. Mas não. As rugas apareciam, as preocupações da idade, só ele: estar ao lado dele, controlá-lo, só isso poderia trazer de volta sua sanidade. Já ouvira que deveria se acostumar e aproveitar o agora. Mas o agora, o agora nunca será tão bom quanto o antes. Os dias de verão, as tardes ensolaradas em Paris, toda a juventude que esbanjava. Nem mesmo seria tão bom quanto estar já pronta para partir para uma nova fase de sua vida: toda essa espera, esses meios períodos entre ser e não ser! por que tudo isso? Por que não deixar todo esse limbo para trás.

– Olha, não posso te fazer acreditar no que eu digo. Eu tive essa conversa muitas, muitas vezes. A sua geração, a humanidade não deixa que eu seja livre. Vocês não conseguem se permitir aproveitar o que tem na mão. E a felicidade não vai estar depois ou antes, ou em um terceiro tempo que ainda não veio.

– Como pode dizer?

– Disse-lhe, já tive essa conversa antes. Não pode me controlar, não pode controlar ao tempo. As coisas mudam mais rápido do que você pensa.

E antes que ela tivesse tempo de refletir sobre essa última afirmação, um vento derrubou o café já frio na mesa e levou também a sua vida.

– Mais rápido do que pensa.

Monotonia

Monotonia.

Ela vivia naquele mundo dela, tão bonito, tão monótono e protegido. Não queria partir, nunca. Clara amava tanto tudo aquilo que tinha, a letargia que era estar viva: o movimento perdido nos pensamentos. Até que.

Ela não sabia como, mas aquela monotonia decidira ir embora. Arrumara mala e cuia, sem deixar bilhete fora. Agora Clara enfrentava as dúvidas de uma vida cheia de cafés rápidos, passos apressados e dúvidas. Sua avó a olhava enquanto corria com as pernas compridas para a escola: “Menina, para sentada que esse café vai te subir a cabeça, e se subir ela não volta”

Ela. Ela da TV ligada, de se sentir segura, ela de não temer a modernidade, os carros, a universidade. E se voltasse? como seria? zumzumzum. brumbrumbrum.

Ela amava os sons, o cheiro da chuva no asfalto. Talvez Clara não quisesse ela de volta. Talvez Clara quisesse viver naquele mundo rápido, intenso de muitas pequenas felicidades. Mas como saber? Uma vez que se está em tal mundo viver sem ela é hábito, é parte do que és.

Zumzumzum, brumbrumbrum.

Até quando?