Aqui

Aqui não sei.

Não sei se me deixo desamarrada, livre, dos interesses do mundo em mim.

Aqui me pergunto se o que faço me enche a alma, se eleva o meu espírito e faz com que a minha vida seja um pouco menos como o que ela de fato é, e um pouco mais como nos filmes.

Aqui me vendem felicidade instantânea, razão pela qual escrevo: sou escrava da infelicidade. Escrava de momentos longos de espera, escrava da monotonia de uma vida simples e me sinto mal por isso, aqui. Forço um sorriso de aceitação a estrutura desenfreada a qual me querem empurrar, ora, ora, eu sei, você sabe: é tudo uma farsa.

Quando sozinha repenso aquilo que sou, o fato de ter alcançado tanto mas ao mesmo tempo tão pouco. Um dia me foi dito: “aquilo que alcançou é o que deve usar como medida para suas ambições, tem que chegar cada vez mais longe do que um dia estivera”. Mas ora, o que pode querer uma menina simples dos subúrbios? Que ambições lhe são próprias a sua existência e quais lhe são enfiadas goela abaixo?

Todos os sons da rua, carros passando no chão de terra, o rádio do vizinho no som máximo, crianças que choram por um doce, água correndo, panela de pressão no fogo, são os sons que me deram. Mas já não estão aqui. Estão lá, junto com a ingenuidade que tinha na cabeça um futuro bonito, mas sem pompa, sem excessos, e sem solidão.

Aqui contemplo que me questionar sobre o que sou já é muito, um passo a frente da onde estive. Sei que a incerteza não me paralisará, mas por quanto tempo mais me contentarei com esses pensamentos mundanos e desafios tão simples?

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