Saudades

Saudades. Sau-da-des.

Com o ‘s’ puxado do carioca ou seco do paulistano, com a emoção do baiano ou as poucas palavras do gaúcho: saudades é sempre saudades.

O sentimento mais comum no mundo, logo depois de amor, expresso em uma única palavra, expresso de forma tão única que nem mesmo nós lusófonos podemos expressar totalmente o que a saudade é, como ela sente. ‘O sentir falta de algo, ou alguém’. Saudades de um cheiro, de uma memória,de um tempo. Uma nostalgia inebriante, irreversível.

Quanto a tenho comigo o presente parece não passar, ao mesmo tempo que o passado parece tão longe e belo. Quanto a tenho comigo meus olhos se fecham para as belezas do meu mundo, e também redescobre outras que ficaram para trás.

Ah saudade, não me castigue! já diziam os poetas, as damas e cavalheiros de tempos remotos. Os apaixonados e despatriados, aqueles que busca de um não sei o quê, não sei onde. Nessa procura continuo me deliciando com essa palavra que dói e desperta vontades terríveis; que me leva a loucura por um tempo gigantesco, quase infinito. Mas quando ela vai, quando ela me deixa, o seu doce som fica, assim como a beleza da chegada ou da partida.

Saudades. Vá, mas volte, por que assim sei que aquilo que ficou valeu a pena. Na minha velhice a terei como companheira e agora a tenho como consequência de lindos dias ao sol em um terra tão bela que parece feita de faz de conta.

Fique.

 

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A Copa do João

João sempre amara futebol. Que loucura eram os campeonatos de rua, as horas discutindo os melhores jogadores do campeonato Brasileiro com os amiguinhos e colegas de classe. Às vezes ele não conseguia assistir o jogo no domingo por que seu pai bebia um pouco demais, esbracejava e ameaçava o acertar com o seu chinelo,  às vezes sua mãe o colocava na cama mais cedo para que ele e seus irmãos não pedissem comida e ela pudesse preparar o jantar só para o seu pai com os restos que tinham, mas ele ainda amava futebol!

Então ele ouviu na TV que a melhor coisa que alguém como ele poderia pedir estava prestes a acontecer: a Copa do Mundo! Bem ali do ladinho dele. Todos os maiores jogadores do mundo estariam no seu país por algum tempo. Seus olhos pretinhos como a sua pele brilhavam de felicidade. Agora ele tinha que conseguir ir em um dos jogos! Mas como? Se sua mãe passava e lavava a semana inteira, e seu pai trabalhava um montão mas nunca sobrava nem um pouquinho para ele e seus irmãos? Talvez se vendesse doces no farol como muitos dos seus amigos faziam ele conseguisse juntar um pouco de dinheiro. Também poderia pedir esmolas com um outro grupo de conhecidos, mas se seus pais descobrissem ele estaria mais do que encrencado.

Um dia ao voltar da escola já tarde, no caminho de terra batida que tinha que percorrer todos os dias e que estava sempre vazio, João avistou uma nota. Duas notas. Três notas. Quantas notas bonitas! Notas que ele nunca tinha visto antes, mas que pelo pouco conhecimento que tinha sabia que valiam muito. Talvez valessem até um ingresso para assistir um jogo! João escondeu as notas rapidamente, e seguiu caminho com um sorriso no rosto e na alma.

Já dormia João no seu colchão velho e fino, quando ouviu os gritos na vizinhança. Sabia que algo estranho estava acontecendo por que seus pais que quase nunca conversavam discutiam sussurrando algo um outro dia quando ele chegara da escola. Os meninos mais velhos do que ele já não jogavam mais futebol a tarde por que diziam que tinham que ‘tomar cuidado da casa da das nossas coisas’. Era manhãzinha, tão manhã que o sol nem havia nascido direito. Tratores e gente da lei, todos estavam lá. Diziam que todo mundo tinha que sair por que aquela área ali era área de construção para Copa. João não entendia, desde bem pequenino estivera ali. Desde sempre aquilo pertencera a gente dele, e agora eles queriam tirar ele dali? E por causa da Copa? Que diabos Cristiano Ronaldo, Messi e qualquer outra pessoa iria querer com os barracos onde eles moravam?

Quanta gritaria. Não tinha jeito. O choro, as lamurias. Tudo que estava ali aquela gente tinha levado uma vida para construir. Suor, dor, muitas histórias. Talvez aquilo não fosse por lei deles, talvez tivesse pertencido ao governo, ao um dono que nunca havia reclamado aquilo, mas agora era deles. Como não?

Aquilo era tudo culpa da Copa, culpa do futebol, culpa dessa gente que tinha vindo lhe roubar, pensou João. Não tinha casa, não teve nem mesmo um teto para dormir naquele dia. Com as coisas em trouxas, o rosto sujo de catarro e lágrimas de tanto chorar, sua família seguiu a procura de um lugar para dormir. Talvez um viaduto, um ponto de ônibus onde a ventania fosse menos forte.

João ainda tinha as notas bonitas guardadas, mas agora elas não tinha mais valia. Ele preferia não assistir a Copa. Aqueles não eram mais os seus ídolos.

– Toma pai, pra ajudar nós montar outra casa.

– Mas Jão! Onde cê achou esse dinheiro todo?