Livros não lidos

Olhinhos atentos a prateleira a sua frente. Ah, que imagem bonita! Podiam ser sobre eletrônica, física quântica, suspenses antiguíssimos, não lhe importava – eram livros enormes, com páginas que cheiravam a passeios no parque, tardes melancólicas na rede, e a distração para o trabalho. Ela sentia como se cada um daqueles livros fosse a alma para um mundo novo, e era só deles que precisava.

Da prateleira com enciclopédias na casa dos avós, passou as prateleiras das casas de livros de segunda mão. Ainda não podia comprar livros cheirando a novo, mas não lhe importava pois os seus favoritos sempre foram aqueles que carregavam mais história consigo. Todos aqueles que tinham cheiro de anos de leitura, que tinham passado por quartos de leitura, escritórios, uma caixa escondida no quarto de bagunça. Esses lhe agradavam mais. Ela sentia o coração das pessoas que os haviam lido. E sentia de tudo!

Havia namoros rompidos que resultavam em livros, outrora presentes, largados pela loja. Havia livros que  ainda que comprados com muito amor, seguindo o ciclo do universo, paravam nas mãos de pessoas amorosas ali. E havia as histórias tristonhas dos enjeitados, que tão pouco foram abertos, foram deixados de lado.

Ela podia viver ali para sempre.

Mas não é assim que as coisas andam. Das lojas de livros usados passou também a frequentar as lojas com os livros novos. Cheiravam a papel recém impresso, um pouco como cola quando grudada na mão. Não lhes amava como os outros, não tinham histórias para contar.

Ainda sim, havia sempre um desafio em ser a primeira a construir uma história com esses. Um pedaço especial. Seriam dela as primeiras lágrimas nas páginas em branco das obras. Também seriam da menina as primeiras orelhas e arranhões.

Muito lhe entristecia pensar em todos os livros que não poderia ler. A eles desejava que encontrassem uma mente tão ansiosa como a dela, a eles desejava o calor de uma tarde de primavera com alguém.

 

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Em busca de mim

Já se foram 5 anos. Talvez mais do que isso. Nem sei. Já se foram universos inteiros, memórias que caberiam em mais do que o tempo humano pode computar. Já se foi há muito tempo que me perdi.

Quando nascemos temos a coragem de conquistar o mundo, temos um brilho que ninguém pode nos tirar. Nem o sorriso ciníco dos incrédulos, nem o medo de que os passos sejam maiores do que a rota.

E lá estava: com a certeza de que os orixás, o universo, ou o que chamam de Deus, estavam de acordo com os meus planos. Certamente muitas coisas estavam por vir, mesmo diante do medo de falhar me via envolta de felicidade genuína. A certeza da boa luta, a certeza do ganho no fim.

Não sei bem se estou cansada ou desiludida. Mas há tanto tempo não escrevo, que percebo que algo mudou. Sem a escrita não respiraria, sem ela não seria quem sou. Eu me perdia, e ela estava ali  como a bússola que me levaria pela busca de mim. Em um algum momento, porém, a deixei.

Será que crescer significa não acreditar? Ter a certeza de se que se faz o que se tem que ser feito pois a recompensa é o que se há para viver no presente.

Privilegiada, sim. Dotada da habilidade de sonhar. Mais do que isso, de um ambiente que, apesar de muito duro por vezes, me proporcionou asas que me levaram longe.

Sinto falta do eu que era quando mais jovem. Da resposta certeira as pedras no caminho, do fé inabalável na alma do universo. Mas também já não sou a mesma. Passei de menina a mulher com as dores e amores da vida adulta.

Queria que tivesse restado o coração ingênuo e aberto ao mundo que tinha.

Mas no fim, resto ainda em busca de mim.

Bloqueio de escrita

Olha, eles dizem que isso acontece com todos.

Eu tenho um tique de estresse no meu olho. Eu tenho contas a pagar, eu tenho uma pilha de louça suja a ser lavada.

Eu tenho uma vida incompleta e aí, não me resta tempo para escrever.

Se é consequência do amadurecimento? Penso que não. Talvez meu coração tenha se tornado mais insensível.

Ah! Eu sentia tanta coisa. Tudo estava ali para ser sentido e escrito. E o que não estava ali para ser sentido, pelo menos poderia ser escrito.

Não há nada mais patético do que o medo de que esses 2 anos, se tornem 3, e então que durem a minha vida toda. Esse medo de que a minha validade no mundo da escrita tenha expirado. Com 6 anos já me sentia inspirada a dizer tudo o quanto podia sobre as coisas que via e aconteciam ao meu redor. Ainda não sabia tantas palavras quanto gostaria, mas usava as que sabia com vontade. Talvez tenha gastado o meu léxico todo nos 15 anos que seguiram, foram 15 anos de muitas aspirações e pensamentos grandiosos, precisei de muitas palavras.

Não sei se viverei pouco ou muito. Só sei que em quanto viver quero escrever. Quero contar histórias minhas e de outros. Quero criticar aquilo que me incomoda e tecer elogios ao que vejo de mais bonito na humanidade. Mas ainda há esperança. Em meio a loucura do mundo eu creio que a escritora em mim está lá, esperando um pedaço de papel e uma caneta para que o novo possa ser escrito.

Afinal, eles dizem que isso acontece com todos.

Aqui

Aqui não sei.

Não sei se me deixo desamarrada, livre, dos interesses do mundo em mim.

Aqui me pergunto se o que faço me enche a alma, se eleva o meu espírito e faz com que a minha vida seja um pouco menos como o que ela de fato é, e um pouco mais como nos filmes.

Aqui me vendem felicidade instantânea, razão pela qual escrevo: sou escrava da infelicidade. Escrava de momentos longos de espera, escrava da monotonia de uma vida simples e me sinto mal por isso, aqui. Forço um sorriso de aceitação a estrutura desenfreada a qual me querem empurrar, ora, ora, eu sei, você sabe: é tudo uma farsa.

Quando sozinha repenso aquilo que sou, o fato de ter alcançado tanto mas ao mesmo tempo tão pouco. Um dia me foi dito: “aquilo que alcançou é o que deve usar como medida para suas ambições, tem que chegar cada vez mais longe do que um dia estivera”. Mas ora, o que pode querer uma menina simples dos subúrbios? Que ambições lhe são próprias a sua existência e quais lhe são enfiadas goela abaixo?

Todos os sons da rua, carros passando no chão de terra, o rádio do vizinho no som máximo, crianças que choram por um doce, água correndo, panela de pressão no fogo, são os sons que me deram. Mas já não estão aqui. Estão lá, junto com a ingenuidade que tinha na cabeça um futuro bonito, mas sem pompa, sem excessos, e sem solidão.

Aqui contemplo que me questionar sobre o que sou já é muito, um passo a frente da onde estive. Sei que a incerteza não me paralisará, mas por quanto tempo mais me contentarei com esses pensamentos mundanos e desafios tão simples?

Abatida

Sentada no balcão. Olhar distante, semblante frio. O café fumegante deixava a sua figura mais fantasmagórica. “Deus me livre” diria dona Maria “uma moça tão bonita sozinha assim, com essa cara de tristeza, dá até pena”.

Quem seria ela? Ela que tomava o primeiro café do dia, todos os dias. Não aparecia aos domingos!, quando diziam, ia a missa.

Ela. Ela tinha medo, mais do que tudo. A vida bruta na rua havia tirado-lhe toda felicidade. Se soubessem ao que se submetia todos os dias, as tormentas que tinha que suprimir com o café forte e o pão seco que pedia, para economizar um pouco.

Ela. Ela sabia que ir a missa não a faria ser perdoada. Não acreditava em Deus, não o Deus do qual sua mãe lhe falava antes de deixá-la para fugir da cidade com o amante. Por que esse fulano só punia as pessoas ruins, e ela tinha sido boa com todos. Só resolveu dar o troco na vida, viver ao seu modo, quando já não suportava o vazio, a falta de quereres e viveres da sua própria alma.

Se temos vida, temos que vivê-la! Pois pronto.

Eles a viam todos os dias. Será que sentia frio com o vestido curto? Será que estaria cansada antes de ir trabalhar? Por que tão triste.

Nunca ousaram-lhe perguntar. Somente quando com seu sumiço, a sua figura esbranquiçada quase transparente desapareceu por completo, que passaram-na a procurar.

Talvez uma forma de ter certeza de que ela realmente existia, e de que eles próprios também.

Não tomou seu café naquele dia. Também não no outro. E no domingo, já não a viram na missa.

Mas a esqueceram. Como fazem sempre com mulheres que decidem viver: ela foi castigada por isso. Deixaram-na morrer, e tudo aquilo de bonito nela também se foi dessa existência. Do seu canto na padaria só sobraria o cheiro do café e um resquício de memória que dizia que algo estava errado. Da suas idas a missa só a velhinha que alimentava os pombos se lembraria da menina: quanta beleza

Ela. Ela não saberia que sua existência era muito mais infinita do que tudo isso.

Seu João da beira do rio

Sua barba a roçar

Ah que vontade de nadar!

Vô você que busca o sol?

Assim como o pão que traz em mão

surge o sol e minha

vontade urge

Urge o bater das asas

os pombos e passáros

mas já não ligo

digo

Me perco nas histórias

na sala, bala

de canhão e de canela

a ela, rainha da Inglaterra

mais que história fantástica

mágica!

Vó a preparar o feijão,

do chão observo o seu

andar, passear, vaguear,

pelo seu reino sempre

ameno e cheio de afazeres,

deveres

bugingangas com as quais

brincamos de gincanas e

ela, ela encana

A noite chega e posso sentir

flor de laranjeira, na beira

na beira do rio, sorrio

Seu João da Beira do rio,

sorrio…

sorrio…

sorriu e partiu.

I see

I see

They say we’re the same

that we got the same

opportunities and help

hell not dumbass!

I see, I see white skin

I see, I see white faces

White, I see white

I feel lonely. White lonely.

Why can´t I be loved mom?

Am I too different?

They say: you got gorgeous eyes!

They say: look at this butt!

I see, I see objectification

I see, I see luxury.

But man, I just wanted to feel loved

Dot.

Siters, Brothers.

They say we’re not worthy

You feel lonely

No sister, don´t do

Your face is the memory of a past we aren’t hiding

Yeah sister, there, back then

Happiness, joy, dance

Ubuntu! Axé!

Ancestry.

They want to hide it,

they want you to forget it,

Don’t let it!

Breath, close your eyes.

Back then we were queens.

Then tears. Pain.

Oh the cotton fields!

“You won’t have me! no! no!’

Those are also memories of the unforgivable

unforgettable

unbelievable

The biggest crime in earth. Genocide

Genocide. I see. I see. Genocide.

Mike Brown, I’m sorry.

Claudia Maria, I am sorry.

Sister, I’m sorry for your son.

They say: “Hands where I can see”

They say “Shut up nigger”

I see struggle! I see…

I see, I see fight

Oh sister,

don’t turn your back to your power

Oh sister,

you’re powerful.

I see, I see you.

And now, you’re not alone.

 

Um dos meus poemas perdidos em um dos meus diários.

A volta

Quando iniciei esse blog há 2 anos esperava me reconectar com o Brasil e o português. Após 2 anos fora, um deles em que meu contato com a língua se deu muito raramente, sentia que aquilo que uma vez amei fazer tinha ficado escondida em um baú empoeirado de histórias e sonhos da minha pré-adolescência. Escrever fora parte essencial do que me tornaria então.

Volto então a colocar as mãos nesse projeto, que será agora um projeto pessoal mais amplo: palavras em português, em inglês, e em qualquer língua que me coração sinta querer se expressar. Palavras sobre tudo, tudo aquilo que me inquieta.

Estamos voltando. Voltando a uma trilha que preciso trilhar: manter-me em contato comigo, com as minhas paixões e dúvidas.

Abalam mais não deixam nossos neurônios cativos...

“Não fomos vencidas pela anulação social,
Sobrevivemos à ausência na novela, no comercial;
O sistema pode até me transformar em empregada,
Mas não pode me fazer raciocinar como criada;
Enquanto mulheres convencionais lutam contra o machismo,
As negras duelam pra vencer o machismo,
O preconceito, o racismo;
Lutam pra reverter o processo de aniquilação
Que encarcera afros descendentes em cubículos na prisão;
Não existe lei maria da penha que nos proteja,
Da violência de nos submeter aos cargos de limpeza;
De ler nos banheiros das faculdades hitleristas,
Fora macacos cotistas;
Pelo processo branqueador não sou a beleza padrão,
Mas na lei dos justos sou a personificação da determinação;”

Abalam mais não deixam nossos neurônios cativos…

Fluindo, criando

Caderno em mãos,

sorriso no rosto

sou eu

 

eu sou

rosto no sorriso

mãos em cadernO

 

Você me gusta

me gusta seus cabelos

me gusta sua vontade de falar

 

falar de vontade sua gusta me

cabelos seus gusta me

gusta me vocÊ

 

Pretty blue flores

voando no meu blue sky

blue butterflies

 

butterflies blue

sky blue meu voando

flores blue prettY

 

Nem sempre o convencional é bonito. A mistura da língua com outras dá vida a minha língua de forma desconexa, sem sentido. Mas que sentido tem a língua se não ser ela falada, escrita e escutada?